nuevo

12/18/2010

http://enumerados.wordpress.com/ blog novo pros enumerados.

 

Desejo oblíquo. Tou esfacelada

feito um castelo de baralhos –

Nessa esquizofrenia que respira da

Coragem dos papeis.

Tudo meu!

 

Desfaço a cama. Às 03:00 da manhã

meu único divertimento

é mudar a disposição

dos móveis,

 

E nessas, é que sou capaz de encarnar

até música ambiente.

 

Ofício desconhecido,

encobrir maçanetas sinuosas,

douradas de mistério

 

Pra sempre, no fim,

olhar e não ir.

11/14/2010

Sou como pólen. Agora sei. Cada gargalhada, assinatura, beijo e constatação – sem começo, meio ou fim -, que me espalha, desconstruindo aquilo que sou.

Desde o momento em que seus olhos não me olharam mais, fui cruelmente inundada por um dezembro fluído; sempre é temporal, todavia e, contudo, na minha felicidade existe um resto de melancolia, talvez desprendida das vistas, despedida dos outros.

Sei que a doença começou a fazer parte de nós quando nossa casa foi dividida em duas, depois nosso quarto e por fim, tudo dentro de nós. No chão, fita crepe, naquilo que é teu, somente minha sombra pode entrar. Todos os móveis milimetricamente divididos, todos os adornos, plantas e livros. E falando nisso, como se rega uma planta pela metade? Continuo cuidando de você.

Por dentro sinto que existe uma sensação diferente de tudo que conhecemos, uma coisa que já está impregnada nas paredes e escorre pela torneira fechada, no entanto, é difícil precisar. Nos levantamos, sentamos, ainda pensamos com amor, um no outro. Lamentamos, nos lavamos, nos conhecemos e as palavras sempre minúsculas, ásperas, duras saindo pela boca, apesar da bandeira de paz, hasteada entre nós.

A cama sempre desfeita. A luz sempre acesa, e às vezes quero dizer sim, outras vezes, não quero dizer absolutamente nada. Você, paralisado dentro de um turbilhão, no mesmo lugar, no mesmo sofá, nas mesmas circunstâncias de anos atrás; continua lindo, de banho tomado, de barba mal feita, de olhos azuis cor de mar e medos tão singelos… É nessa hora que meu coração aperta: uma angústia tão sem motivo. Me viro na cama, indo na sua direção, quebro as regras impostas tão suavemente e ouço sua respiração, sei que sinto sua presença como sentia antes, tão violentamente.

Mentiras deslavadas, uma enxurrada silenciosa de acusações, sempre as mesmas. No café da manhã, noto mesa para dois, tudo que gosto você já cozinhou, dia após dia, café puro, torradas, bolo de laranja, mamão papaia. Tomo café, somente café e diante de  disto, todos os cuidados se tornam guerras violentíssimas, que, como nossa fluidez, se espalha. Você me olha, me infiltra e num rasgão, pergunta se não vou comer mais, se esse buraco que existe em você também já tomou conta de mim. Chega mais perto, ultrapassa nossa regra e me revira inteira quando continua perguntando, pergunta mais, pergunta se tenho medo. Saio depressa, me perco pela casa, coloco calças por cima do short, me trancafio do lado de fora, longe de você, de tudo que há em você. Perco as chaves.

Desde aquele café da manhã inesperado, uma sensação me circula inteira, desde o corpo até os órgãos, os ossos, a memória, a boca. Tento olhar nos seus olhos enquanto sinto que você me olha, transpassar essa loucura vigente  em que nós dois nos transformamos. Recontornar as águas, os erros, comandar novamente o fluxo e perceber, noite após noite, como ontem, que apesar da intensidade do sono, meu sonho continua velado e beijado.

(continua…)

Sonho 10:41

11/07/2010

Éramos nós. Eu e aquela massa que me envolvia sem nenhum pudor.

Antes, eu e a escuridão – tenho um banquete, cookies, queijo, banana:

E todo o resto que cala minha boca: sushi, paella, comida caseira. Mineira.

Rasga a fresta, vieram uns animais. Viram uns animais. Viro um animal.

Sensação de judiados. me tateiam, querem meu rosto, minha voz, tudo que

Desce estômago abaixo.

Não desistem. Não existem vozes, não há silêncio.

Ruminam pensamentos vazios, desdobram papéis, descascam bananas.

Sinto um beijo. Língua doce: gosto de leite, morango. Cheiro de papoulas.

Engole minha saliva, sou objeto. Mordo tua boca. (Quem é?)

Restos no chão. Todos se vão. Renova-se a mesa. Sou como uma planta.

Sem terra, sem raízes. Sem selva.

Pela leve movimentação no piso, sinto que outros virão.

No entanto, houve uma ruptura, me transferi naquele instante.

Três lados, milhares de facetas. Encarnei o toque e não desprego.

Saio do papel, sinto rancor. Rasgo a cortina.

Quem me espera?

(1) Degustação

10/30/2010

Depois da paixão monstruosa e crescente, no coração culmina uma vontade engraçada de analisar quase friamente todas as partes desprendidas da razão. Onde se perderão aqueles segundos de sensatez que nem o silêncio cala? Pergunto cem milhões de vezes, desprendo da memória infantil qualquer achado justificável para encontrar nas somas e ciências mínimas o que a vontade exalta.

Na transferência, imito como num espelho atravessado todas as pequenas frustrações descobertas ao acaso a fim de localizar nos pequenos atos e erros despercebidos àquilo que o corpo transcende. Toda a indiferença que ainda morrerá junto ao toque, à matemática obscura dos que não sabem e com certeza se perderão no fim de cada dó. Maior ou menor?

Tudo aquilo que se movimenta, a curiosidade como um êxtase diante dos punhos fechados. Dentes travados e círculos de água; ainda há o arrebatamento, como um amor brando, recolhendo todos os detalhes e grandes catástrofes que a beleza é capaz de criar.   Sempre e sempre, de fora para dentro, com a perplexidade de uma violência profunda e intima.

Afora, por dentro da espera, me colo ao lado do deleite, por detrás de todos os pensamentos que me distanciam do imenso. Sua respiração, pequeno cheiro de jasmim: tudo isso, que me desprende da sinceridade ardente, lançado à relva.

Exposição àrida

10/28/2010

Diria leve que, naquele instante eu me transformara em um copo de leite derretido. Um copo-de-leite completamente aberto como naqueles desertos silenciosos, que paralisam. E, nesse pedaço, a feição e todo resto é apenas um signo da realidade, de dentro pra fora um afluente que emudece a comunicação, existe sim? Não.

Quis correr pra sempre, abortar essa liberdade de vísceras, de entranhas que se aglutinam. Vontade máxima de odiar aquilo que desejo tanto, sem ao menos perceber que espero o convite, àquele movimento que toca no ponto máximo. De tudo que é irreal, todas as possibilidades que se transformam em olhos, sorrisos e pele.

Já meu corpo adormece num pedaço de carne desértico, como se qualquer possibilidade bastasse. Sentada bem aqui, pregada bem ali, onde muitas vezes fui tantas, quando o prazer suprimia qualquer visibilidade e excluía – mesmo – qualquer sintaxe, constância, derivação ou palavra: contato.

Vamos para o paraíso, de pilequinho. A memória é um privilégio e sempre tudo, como se fosse muito, é nunca ter tido.