nuevo
12/18/2010
http://enumerados.wordpress.com/ blog novo pros enumerados.
Não por escolha própria
12/10/2010
Desejo oblíquo. Tou esfacelada
feito um castelo de baralhos -
Nessa esquizofrenia que respira da
Coragem dos papeis.
Tudo meu!
Desfaço a cama. Às 03:00 da manhã
meu único divertimento
é mudar a disposição
dos móveis,
E nessas, é que sou capaz de encarnar
até música ambiente.
Ofício desconhecido,
encobrir maçanetas sinuosas,
douradas de mistério
Pra sempre, no fim,
olhar e não ir.
Sou como pólen. Agora sei. Cada gargalhada, assinatura, beijo e constatação – sem começo, meio ou fim -, que me espalha, desconstruindo aquilo que sou.
Desde o momento em que seus olhos não me olharam mais, fui cruelmente inundada por um dezembro fluído; sempre é temporal, todavia e, contudo, na minha felicidade existe um resto de melancolia, talvez desprendida das vistas, despedida dos outros.
Sei que a doença começou a fazer parte de nós quando nossa casa foi dividida em duas, depois nosso quarto e por fim, tudo dentro de nós. No chão, fita crepe, naquilo que é teu, somente minha sombra pode entrar. Todos os móveis milimetricamente divididos, todos os adornos, plantas e livros. E falando nisso, como se rega uma planta pela metade? Continuo cuidando de você.
Por dentro sinto que existe uma sensação diferente de tudo que conhecemos, uma coisa que já está impregnada nas paredes e escorre pela torneira fechada, no entanto, é difícil precisar. Nos levantamos, sentamos, ainda pensamos com amor, um no outro. Lamentamos, nos lavamos, nos conhecemos e as palavras sempre minúsculas, ásperas, duras saindo pela boca, apesar da bandeira de paz, hasteada entre nós.
A cama sempre desfeita. A luz sempre acesa, e às vezes quero dizer sim, outras vezes, não quero dizer absolutamente nada. Você, paralisado dentro de um turbilhão, no mesmo lugar, no mesmo sofá, nas mesmas circunstâncias de anos atrás; continua lindo, de banho tomado, de barba mal feita, de olhos azuis cor de mar e medos tão singelos… É nessa hora que meu coração aperta: uma angústia tão sem motivo. Me viro na cama, indo na sua direção, quebro as regras impostas tão suavemente e ouço sua respiração, sei que sinto sua presença como sentia antes, tão violentamente.
Mentiras deslavadas, uma enxurrada silenciosa de acusações, sempre as mesmas. No café da manhã, noto mesa para dois, tudo que gosto você já cozinhou, dia após dia, café puro, torradas, bolo de laranja, mamão papaia. Tomo café, somente café e diante de disto, todos os cuidados se tornam guerras violentíssimas, que, como nossa fluidez, se espalha. Você me olha, me infiltra e num rasgão, pergunta se não vou comer mais, se esse buraco que existe em você também já tomou conta de mim. Chega mais perto, ultrapassa nossa regra e me revira inteira quando continua perguntando, pergunta mais, pergunta se tenho medo. Saio depressa, me perco pela casa, coloco calças por cima do short, me trancafio do lado de fora, longe de você, de tudo que há em você. Perco as chaves.
Desde aquele café da manhã inesperado, uma sensação me circula inteira, desde o corpo até os órgãos, os ossos, a memória, a boca. Tento olhar nos seus olhos enquanto sinto que você me olha, transpassar essa loucura vigente em que nós dois nos transformamos. Recontornar as águas, os erros, comandar novamente o fluxo e perceber, noite após noite, como ontem, que apesar da intensidade do sono, meu sonho continua velado e beijado.
(continua…)
Sonho 10:41
11/07/2010
Éramos nós. Eu e aquela massa que me envolvia sem nenhum pudor.
Antes, eu e a escuridão – tenho um banquete, cookies, queijo, banana:
E todo o resto que cala minha boca: sushi, paella, comida caseira. Mineira.
Rasga a fresta, vieram uns animais. Viram uns animais. Viro um animal.
Sensação de judiados. me tateiam, querem meu rosto, minha voz, tudo que
Desce estômago abaixo.
Não desistem. Não existem vozes, não há silêncio.
Ruminam pensamentos vazios, desdobram papéis, descascam bananas.
Sinto um beijo. Língua doce: gosto de leite, morango. Cheiro de papoulas.
Engole minha saliva, sou objeto. Mordo tua boca. (Quem é?)
Restos no chão. Todos se vão. Renova-se a mesa. Sou como uma planta.
Sem terra, sem raízes. Sem selva.
Pela leve movimentação no piso, sinto que outros virão.
No entanto, houve uma ruptura, me transferi naquele instante.
Três lados, milhares de facetas. Encarnei o toque e não desprego.
Saio do papel, sinto rancor. Rasgo a cortina.
Quem me espera?
(1) Degustação
10/30/2010
Depois da paixão monstruosa e crescente, no coração culmina uma vontade engraçada de analisar quase friamente todas as partes desprendidas da razão. Onde se perderão aqueles segundos de sensatez que nem o silêncio cala? Pergunto cem milhões de vezes, desprendo da memória infantil qualquer achado justificável para encontrar nas somas e ciências mínimas o que a vontade exalta.
Na transferência, imito como num espelho atravessado todas as pequenas frustrações descobertas ao acaso a fim de localizar nos pequenos atos e erros despercebidos àquilo que o corpo transcende. Toda a indiferença que ainda morrerá junto ao toque, à matemática obscura dos que não sabem e com certeza se perderão no fim de cada dó. Maior ou menor?
Tudo aquilo que se movimenta, a curiosidade como um êxtase diante dos punhos fechados. Dentes travados e círculos de água; ainda há o arrebatamento, como um amor brando, recolhendo todos os detalhes e grandes catástrofes que a beleza é capaz de criar. Sempre e sempre, de fora para dentro, com a perplexidade de uma violência profunda e intima.
Afora, por dentro da espera, me colo ao lado do deleite, por detrás de todos os pensamentos que me distanciam do imenso. Sua respiração, pequeno cheiro de jasmim: tudo isso, que me desprende da sinceridade ardente, lançado à relva.
Exposição àrida
10/28/2010
Diria leve que, naquele instante eu me transformara em um copo de leite derretido. Um copo-de-leite completamente aberto como naqueles desertos silenciosos, que paralisam. E, nesse pedaço, a feição e todo resto é apenas um signo da realidade, de dentro pra fora um afluente que emudece a comunicação, existe sim? Não.
Quis correr pra sempre, abortar essa liberdade de vísceras, de entranhas que se aglutinam. Vontade máxima de odiar aquilo que desejo tanto, sem ao menos perceber que espero o convite, àquele movimento que toca no ponto máximo. De tudo que é irreal, todas as possibilidades que se transformam em olhos, sorrisos e pele.
Já meu corpo adormece num pedaço de carne desértico, como se qualquer possibilidade bastasse. Sentada bem aqui, pregada bem ali, onde muitas vezes fui tantas, quando o prazer suprimia qualquer visibilidade e excluía – mesmo – qualquer sintaxe, constância, derivação ou palavra: contato.
Vamos para o paraíso, de pilequinho. A memória é um privilégio e sempre tudo, como se fosse muito, é nunca ter tido.
Espero aquele contato visceral. Todas aquelas idas e vindas que nunca tive coragem – sequer – de imaginar. O impalpável. O inigualável. Qualquer equívoco mais sonoro que míseras tragadas, um desejar mais doído que olhares e sorrisos. Ainda mando cartões postais e fotografias, grandes silêncios envoltos à lama e ao barro.
Sei que existem tentativas prontas pra burlar todo tipo de regra. A imposição instaurada pinga, pouco a pouco por entre as pernas, floresce na manhã como um lindo bouquet, e ecoam dissonâncias interiores que paralisam qualquer fagulha a mais. Mas sou folhagem nessas horas vagas extrassensoriais que rasgam as veias e contaminam a inocência de qualquer virtude.
Fui paralisada no tempo desértico. Talvez até seduzida por uma miragem enquanto minha língua torpe ia se desfazendo em mil vontades. O crânio sempre martela, enquanto crescem ervas daninhas, prejudiciais, enlouquecedoras. E, ainda observo sedenta, qualquer tipo de encenação com os olhos tortos e o útero completamente pra fora. Como se fizessem círculos inaudíveis em torno do meu corpo, seguindo todas as direções. Pra cima, pra baixo e não aguento mais, rompo a bolha que envolve cada pedaço opaco. Meio centímetro, milésimos de segundo, pra onde vai esse tempo que ninguém mais soube calcular? Rolo os dados, misteriosamente, como se a mim pertencesse o veredito final, sei que vamos para Constantinopla.
Esperava que ela me dissesse, e que não por uma obliquidade, reagisse, mas não, Benoît, a cada olhar denso e penetrante, ia me comendo inteira, com cheiro de porra e punheta. Essas, que não são e nunca serão de Santa Tereza. Queria dizer, queria falar muito, mas o quê? Reagisse era meu papel, estourar todos os balões, inventar um poste ali, e deslizar, como quem flutua no ar, mais e mais e mais inabalável, ou quem sabe, mais e mais próxima; como aquela fumaça pulmões adentro, aquele mar adentro, aquela loucura a olhos nus. Poema humano se formando por entre todos meus deltas, desaguando num lugar sem fim.
Abarcada nesse quarto sem fim.
10/22/2010
Abarcada nesse quarto sem fim. A cortina está estragada há meses, não fecha por completo, sempre deixa uma fresta entrar, inundando inutilmente um pedaço do piso com o calor do lado de fora. Ela sempre me diz que se irrita com o sol, com as tonalidades bruscas, com o terror dos carros do lado de fora; sempre sentimos cheiro de asfalto e o som estridente das pessoas indo e vindo. Ela se assusta, mais do que nunca, se assusta com buzinas e sirenes, nenhuma bomba, nenhum berro poderia assustá-la mais do que esse tipo de coisa e, ficamos as duas, paralisadas. Não sei por que, o jeito selvagem com que ela se movimenta de repente cessa e se transforma num pequeno sussurro, e eu, eu fico ali, mais imóvel e dedicada do que nunca. Por essa coisa desenhada no chão ela vai fazendo e desfazendo compassos sem som, criando pequeninas formas indescritíveis: eu observo, escrevo bobagens nas paredes encardidas por dezenas de meses. E não mais que depois de um respiro, dá uma vontade de arrancar tudo, descolar o chão, passar o teto pra outro lugar, elevar o que já está no alto, e silenciar. Isso era no inicio, no inicio era assim, a febre sempre nos acompanhava, um toque distante, como se estivéssemos envolvidas por uma leve película, talvez uma gelatina. A retina ia colando e se despregando, nossas fotografias sempre sem moldura, todas as frases presas ao teto, sem nenhum comprometimento com a verdade cruel.
Nunca esperamos a morte, num pensamento conjunto, a hipótese de um acidente fatal nunca enervou nossos dias tão despretensiosos, mas nesse Agosto, tudo mudou. Uma sensação ia crescendo e inundando sem nenhuma misericórdia o agora desse amor crescente. Ela não diz nada, da sua boca saem reminiscências do que éramos ontem, aquilo de estar sempre e estar apesar de tudo. Acompanho cada movimentação, cada parte obscura que vem de dentro pra fora, os cabelos se modificando, criando uma vida própria tão peculiar. Não por acaso reparo que estou exausta, no mesmo sofá, a mesma marca de cigarros, o mesmo cinzeiro a meses, a mesma porta que não se abre, nunca se abrirá, nesses empurrões me sobe alguma coisa, você sabe, olho os telhados, a janela completamente fechada, a cortina entreaberta e uma espécie de atmosfera ardente, que faz sempre os olhos se fecharem e o coração ir a mil, 120 é pouco demais. Não é o fato de o navio estar afundando que me desola, pois ele não está. Criamos um castelo tão indestrutível que nem a bomba de Hiroshima e Nagasaki derrubaria nossos pequenos esforços diários para continuar demonstrando todos os pequenos defeitos.
Me da um beijo de boa noite. E agora meu sono é sempre sem sonho, sinto que ela se deita nessa nossa cama que não é de viúva nem de casal, à noite, sua vida é inquieta, um império concedido a poucos. Pergunta se estou dormindo, digo que sim, obviamente, ela pergunta se vou lembrar desta conversa amanhã, pois, se for pra lembrar, ela não vai contar nada. Não, eu não vou lembrar. Ela diz bem baixo, bem devagar: não consigo mais, sinto aquilo e, pra falar a verdade, também fui engolida. Continuei de olhos fechados, o suor frio ia congelando o colchão, a cama inteira, os movéis e depois até o lado de fora, a vida tem dessas, engolidas por qualquer acaso, qualquer inexplicação exacerbada de um controle caótico, uma organização desorganizada. Sei que sentimos o mesmo ao acordar, procurando grampos, farrapos, sem coragem alguma de olhar no espelho porque a chance é grande de perceber que existe, de fato, um buraco no lugar do estômago.
E só porque os dias passaram rápido demais. Aquele desfecho sensacional não acontece nessas histórias de um cômodo só, continuamos nos olhando, penteando os cabelos gentilmente, o grampo sai da boca, prende os cabelos, os olhos penetram fixamente naquele ponto, e quem sabe, a música rode tantas vezes que pode ser capaz de intoxicar.
Bouquet
10/19/2010
Tudo. Saindo boca afora. Todo seu poder de alienação, qualquer palavra que a boca não diga. Qualquer vibração pra dentro, os ossos sentindo o que a garganta doída engole. E mais por dentro, só aquela capacidade de mascarar o intratável e dilacerado ego: indiferença.
Não. Eu deveria dizer, como naquele movimento rápido que ‘não’ é sempre a personificação de Nice. Como verdades enviesadas por mil línguas que sempre culminarão o amor das salas de estar. Talvez não, eu ainda assim, diria algo. Porque não dizer que o que ele me dizia, lá no fundo e ao fundo, preenchendo todos os espaços vazios, nunca foram nada, além de ambientação.



